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Qua, 15/03/2017 às 13:45

Distopia de 50 anos

Adalberto Meireles | Jornalista

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  • Reprodução | TV Globo

    Glauber Rocha nasceu e passou parte da infância na casa localizada no Centro de Conquista - Foto: Reprodução | TV Globo

    Glauber Rocha nasceu e passou parte da infância na casa localizada no Centro de Conquista

Lançado em 1967, o terceiro longa de Glauber Rocha - que teria completado 78 anos de idade ontem - será exibido hoje, às 19 horas, em edição especial do Cineclube Walter da Silveira, seguido de debate com os cineastas Fábio Di Rocha e Haroldo Borges.

Um filme radical, composto por estilhaços de tempo e de memória, em um só momento reunindo um discurso político, poético e filosófico para traduzir, no período imediatamente posterior, a perplexidade diante do golpe de 1964.

Não dava para disfarçar. Embora remetesse a um país imaginário latino-americano chamado Eldorado, Terra em Transe falava mesmo do Brasil. Foi logo proibido pelo governo militar de Costa e Silva.

Delírio

Barroco, alegórico, discursivo, visionário, à feição de seu criador, que recebeu o prêmio da crítica no Festival de Cannes de 1967, conta com uma narrativa entrecortada pelo delírio e a memória do poeta e jornalista burguês Paulo Martins (Jardel Filho).

À beira da morte, ele refaz sua trajetória ao lado do governador da província de Alecrim, D. Filipe Vieira (José Lewgoy), do político D. Porfírio Diaz (Paulo Autran), do empresário D. Júlio Fuentes (Paulo Gracindo) e de duas mulheres: Sara (Glauce Rocha), a ativista política torturada que jamais abandonou a militância, e Silvia (Danuza Leão), a amante meretriz de Diaz, com quem forma um triângulo amoroso.

Já é fato consumado que Martins representa o intelectual engajado, conflitado, envolvido na revolução; Vieira, o político populista; Diaz, o tecnocrata de direita contrário à revolução e inclinado ao imperialismo americano; Fuentes, o empresário corrupto.

No centro de tudo, um sem-número de personagens que evocam, sem delongas, a tradição erudita e popular da nação brasileira.

O filme incorpora elementos tão díspares e conflitantes quanto complementares, como o barroco e o rococó, o carnaval e a ópera, o rural e o urbano, a vida e a morte.

Ataques

Lírico e trágico, Terra em Transe não foi, não é e nunca será uma unanimidade. Escolhido o quinto na lista dos 100 melhores da Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine), o filme de Glauber Rocha volta e meia é atacado por diferentes setores da sociedade.

"Quando um intelectual vem me dizer que não gostou de Terra em Transe porque não entendeu, dá vontade de perguntar a ele se poesia ou música ele entende tudo como entende uma reportagem, isto é, no sentido explicativo, óbvio, ululantérrimo!", disse certa vez Glauber Rocha.

"Situei o filme aí [no Eldorado]", complementa Glauber, "porque me interessava o problema geral do transe latino-americano e não somente do brasileiro. Queria abrir o tema 'transe', ou seja, a instabilidade das consciências. É um momento de crise, é a consciência do barravento."

Provocador

O mérito da obra de arte está em sua autonomia. E isso Terra esbanja. Sua beleza vem do enlevo e do encanto, mas sobretudo da capacidade de provocar, de inferir, interferir, incomodar, um raro caso de manifestação do sublime no caos.

A montagem lancinante de Eduardo Escorel, o cartaz de Luiz Carlos Ripper, a câmera de Dib Luft, a cenografia de Paulo Gil Soares e a música original de Sérgio Ricardo se unem para erguer uma dessintonia orgânica e altamente criativa em Terra em Transe.

Hélio Pellegrino escreveu na época para o Jornal do Brasil que Terra em Transe é uma "vigorosa e visionária alegoria política sobre o Brasil e a América Latina tendo como temas centrais o populismo, as utopias libertárias de esquerda e o concerto barroco de diversas culturas (africana, índia, branca)".

"(...) tem um entrecho ficcional que já antecipa o questionamento de Glauber às noções ainda resistentes de trama e narrativa. Abolindo a ordem cronológica e adotando um acento fortemente operístico e carnavalizante, é um dos filmes-manifesto do Cinema Novo", prosseguiu o psicanalista, poeta e escritor.

Farol

Obra crítica, livre e atemporal, Terra em Transe surgiu como um farol. Um dos principais títulos do Cinema Novo brasileiro, incorporou elementos da Nouvelle Vague, notadamente do franco-suíço Jean-Luc Godard, e demais referências que transformou em pura invenção.

Reviu embates sociais e políticos do passado-presente em alusão a nomes representativos no cenário nacional, como Carlos Lacerda e João Goulart, e apontou para um cinema de futuro: bem na direção da exuberância pós-modernista do Tropicalismo e do escracho e da irrupção do underground (o údigrudi) brasileiro.

CINECLUBE WALTER DA SILVEIRA /EXIBIÇÃO DE TERRA EM TRANSE SEGUIDA DE DEBATE / QUARTA-FEIRA, DIA 15, 19H / SALA WALTER DA SILVEIRA


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