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Daniel Dórea

Detalhe Tático

Ter, 13/12/2016 às 07:10

O que pensam os gênios?

Jornalista d.dorea@hotmail.com

Ele havia acabado de perder um jogo espetacular por 5 a 4, mas sabia: o que tinha feito e o que faria dali para frente era muito mais importante do que uma simples derrota. O gol no qual arrancou driblando e tabelando desde a intermediária, com o desfecho impressionante que até hoje o zagueiro flamenguista Ronaldo Angelim tenta entender, a então joia do Santos Neymar descreveu assim: “Eu não sei o que tô fazendo”.

Compreensível. Os gênios do futebol costumam ser instintivos. Ninguém sabe de onde vem o espírito selvagem de um menino de oito anos que entorta as colunas dos coleguinhas mais velhos.

Neste final de semana, vi dois lances absolutamente magistrais saírem dos pés de gênios. Um já consagrado, Lionel Messi. Aos 29 anos, Leo ainda tem muito a brilhar, mas a luz aparece cada vez menos. O outro também famoso, Paulo Dybala. Aos 23 anos, é o cara que ainda tem de crescer mais para, daqui a uns três anos, chegar ao auge no mesmo momento em que estará aflorada de vez a decadência de Messi.

Por enquanto, vale vibrar com o poder paranormal de ambos. Uma semana após a atuação apagada no clássico com o Real Madrid, Messi divertiu quem ama futebol no sábado, contra o Osasuna.

Tento aqui fazer algo não aconselhável. Descrever e entender, como observador distante e quase leigo na arte de jogar bola, a obra de um gênio.

No terceiro gol do 3 a 0 do Barça (à direita no infográfico), Messi recebe a bola na intermediária ofensiva e a domina já levando para o pé canhoto. Com a chegada brusca de um defensor, centraliza a jogada. Aparece mais um, que vem do outro lado, e o craque corta para a direita. Outro se aventura a tentar roubar-lhe a bola, agora vindo da esquerda, e ele o vence seguindo na mesma direção. Até ali, tinha tirado três adversários do caminho em atos de ocasião, que não estavam nos planos. Eram as mais simples soluções para os problemas que se apresentavam.

A parte final seria a mais divertida. Messi deixa a bola avançar e a segue de perto até a marca do pênalti. Teria o marcador, naquela hora, lembrado do alemão Boateng se espatifando no chão por achar que o argentino não ousaria preterir o refinado pezinho esquerdo? Pois desta vez o lado escolhido é de fato o canhoto, o que faz o zagueiro tocar o joelho na grama e o goleiro antecipar o pulo à espera do habitual chute no canto oposto. E aí abre-se o exato espaço para, entre quatro rivais, o baixinho oxigenado empurrar para a rede.

Oito toques na bola; cinco marcadores pelo caminho; quatro deles driblados, com quatro mudanças de direção na corrida, em seis segundos de jogada. Tudo natural.

O lance de Dybala, o do terceiro gol da Juventus ante o Torino, é menos instintivo. Mais pensado. Principalmente em seu início, quando ele recebe a bola de costas para o gol adversário. Em três toques, livra-se de uma situação complicada, com três marcadores ao redor, e parte em veloz arrancada de 20 metros. Corrida com plano traçado e concretizado de tirar um rival da rota com um breque. Como outro está à espreita, Dybala simula continuar a investida rumo à linha de fundo, mas logo afunila o lance novamente e dribla o segundo. Dez toques na bola, contra quatro marcadores, dois deles driblados com quatro mudanças de direção em nove segundos de jogada.

E continua. A empreitada individual vira, com só mais um toque, passe raro pelo meio da defesa para Higuaín. O compatriota carimba o goleiro, mas o destino reserva o rebote a Dybala. Ele se aproxima da bola em velocidade, como se fosse chutar, porém, entre um zagueiro e o arqueiro, acha Pjanic livre na marca do pênalti. O bósnio ainda precisa finalizar duas vezes para marcar. Na Juve, não há outros Dybala.

Vejam os vídeos dos gols à medida em que leem estas descrições. É bem possível que vocês as elaborassem de outra forma. O que eu queria mesmo era saber fazer, na prática, o que esses caras fazem.

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