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Daniel Dórea

Detalhe Tático

Ter, 20/12/2016 às 07:12

O clichê da superação

Jornalista l d.dorea@hotmail.com

O esporte é o terreno mais fértil para o clichê da superação. Quem não quer se arrepiar ao ver alguém fazer o que não dá para fazer? E nem pretendo aqui usar exemplos paranormais, como Jefinho, Daniel Dias e outros monstros paralímpicos. Nas Olimpíadas, já vimos lendas como Usain Bolt e Mireya Luis desmentirem padrões de biotipo ideal para brilhar com intensidade.

Mas vamos nos ater ao futebol, querida modalidade na qual podem vencer na vida gordinhos e mirrados, gigantes e baixinhos, gênios e pernas-de-pau. Quantos gols Romário (1,67 m) marcou no meio de zagueiros bem mais fortes e altos? Quantos gols Iván Córdoba (1,73 m) evitou por ser praticamente impecável em jogadas aéreas? E Fabio Cannavaro (1,76 m e 75 Kg), que, como zagueiro, conseguiu ser eleito o melhor jogador de uma das Copas do Mundo de maior imposição física na história? Alguém olharia, 20 anos atrás, para o grandalhão Zlatan Ibrahimovic (1,95 m) e diria que ele viria a se tornar um atacante de grande habilidade?

No clássico entre Juventus e Roma, no último sábado, a Juve venceu por 1 a 0 com um lindo gol em lance individual de Gonzalo Higuaín. No entanto, aqueles que assistiram à partida com atenção não podem ter dúvida ao apontar o principal destaque da partida: Mario Mandzukic.

Desengonçada torre croata, o atacante de 1,90 m está longe de ser um craque. Não tem uma técnica que salte aos olhos, não é dotado de habilidades especiais, não é perito em nenhum fundamento, não exibe boa velocidade, e, para um centroavante, não tem faro apurado de artilheiro.

Ponto importante: ‘para um centroavante’. O fato é que, na Juve, Mandzukic não tem atuado nesta posição. Sua boa mobilidade, aparentemente incompatível ao corpanzil, e o empenho impressionante dão ao técnico Massimiliano Allegri a alternativa de escalá-lo pelos lados do campo, com funções de importância equivalente para defender e atacar.

No infográfico acima, estão registrados todos os 42 toques na bola do croata durante o confronto de sábado. Treze deles (31%) ocorreram no campo de defesa. Vale ainda destacar que ele teve mais participações efetivas na área defensiva (4) do que na ofensiva (3). Dos quatro cortes efetuados após cruzamentos da Roma, três foram em lances de bola parada. O outro, impressionante, em jogada normal mesmo. Era difícil acreditar em como ele conseguia se mostrar útil nos mais diferentes setores do campo.

Nesta Juventus, que não ousa apostar na difícil empreitada de ser uma equipe de posse de bola, é imprescindível contar com um jogador que vença disputas. No duelo deste fim de semana, Mandzukic brigou pela bola em 22 ocasiões, seja após chutões que vieram dos pés de companheiros ou de adversários, ou ainda de lançamentos ensaiados que solicitavam justamente seu talento para esse tipo de lance. Ganhou 17 dos embates (10 pelo alto e sete por baixo) e perdeu apenas cinco. Ainda contribuiu com quatro interceptações e três desarmes. Ou seja, em 24 oportunidades fez a Velha Senhora ficar com a bola em ocasiões nas quais ela não tinha dono definido ou estava sob domínio rival.

E, mesmo com o sacrifício de se doar quase por inteiro a um ‘trabalho sujo’, o croata buscou fôlego para produzir também no ataque. Em duas das disputas ganhas pelo alto, acionou companheiros que finalizaram a gol. Ainda deu dois passes ‘limpos’ que colocaram Higuaín e Sturaro em ótima condição para balançar a rede, mas eles perderam as chances. As quatro contribuições estão em destaque no infográfico.

Mandzukic foi titular só porque o craque Dybala volta de lesão. Mas, nos minutos finais do jogo, quem saiu para Dybala entrar foi Higuaín. Pela forma como tem atuado a Juve, eu não devolveria o croata à reserva.

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