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Daniel Dórea

Detalhe Tático

Ter, 27/12/2016 às 18:33 | Atualizado em: 27/12/2016 às 18:48

O fácil e o difícil

Jornalista d.dorea@hotmail.com

Tem jogadores que são tão bons que fazem o fácil parecer difícil e, acreditem, também o difícil parecer fácil. Não é loucura, mas questão de ponto de vista. Quando a situação se complica e se faz necessário o uso da habilidade, Hazard simplifica. Quando trata-se de jogada que pede solução simples, Hazard resolve com tamanha sofisticação que você olha e pensa: “quem seria capaz de repetir isso?”.

Exemplifico. No jogo de ontem, vencido pelo Chelsea por 3 a 0 contra o Bournemouth, o belga chegou a se ver cercado por rivais e até pelo corpo do companheiro Fábregas estirado no chão. Com um leve toque na bola para encobrir o colega, escapou do problema. Em outro momento, viu-se livre na entrada da área para arrematar a gol, e inovou. Mandou de letra por cobertura. Defesaça do goleiro – o lance até já estava parado, mas não importa.

Por mais que possam tachar de burocrático o Chelsea, comandado por um italiano e com a defesa menos vazada do Campeonato Inglês, a verdade sobre a equipe que lidera a competição com 12 vitórias consecutivas – recorde histórico do clube – é outra.

O esquema foge do lugar-comum do 4-1-4-1/4-2-3-1. Antonio Conte usa um dinâmico 3-4-3, o que faz com que o adversário precise ultrapassar três linhas para se aproximar do gol – nas outras formações citadas, são basicamente duas linhas com um jogador mais à frente. Na zaga, o lateral de origem Azpilicueta joga pela direita, Cahill pela esquerda e David Luiz no meio. Os que atuam pelos lados abrem como laterais para facilitar a saída de bola. Pelo meio, David, que tem o melhor passe dos três, também consegue fazer o jogo fluir.

Na linha intermediária, Moses, originariamente atacante, cobre a direita e o ala Marcos Alonso a esquerda. Sem a obrigação de fazer a diferença como os ‘pontas’ dos esquemas usados hoje em dia, sobra mais gás para defender e apoiar o ataque com eficiência. No centro, o técnico Fábregas e o vigoroso Matic não ficam sobrecarregados na tarefa de fazer a transição.

Flutuante

Mais à frente, muita velocidade e habilidade. Como o centroavante Diego Costa estava suspenso, Hazard foi escalado no comando do ataque e ficou livre para flutuar por onde quis. Seus 57 toques foram bem divididos entre todos os setores da intermediária ofensiva – apenas seis aconteceram atrás da linha do meio-campo e em quatro oportunidades foi acionado já dentro da área no ataque.

Na verdade, a determinação das posições na linha ofensiva serve apenas para o momento da marcação. Quando o Chelsea avança com a bola, impera a liberdade. Hazard costuma recuar para receber entre o meio-campo e a entrada da área de ataque, e ilumina os lances com curtas arrancadas e passes precisos, geralmente mirando as infiltrações dos outros atacantes, Willian e Pedro, ou na busca de tabelas com Fábregas.

No infográfico, está ilustrada uma jogada na qual ele é acionado pelo zagueiro Cahill, desmonta a defesa ao driblar três, tabela com Pedro e, já na área, tem serenidade para encontrar Fábregas em boa posição para o chute. O espanhol acaba sofrendo o desarme.

É importante ressaltar a precisão no jogo do belga. No início deste mês, destaquei que, no duelo Barcelona x Real Madrid, Neymar desperdiçou a posse da bola 19 vezes, sendo desarmado ou em passes errados. Hazard não errou nada até os 22 minutos do segundo tempo, quando o jogo já estava resolvido com o placar de 2 a 0. Depois, foi desarmado em quatro lances, falhou em um lançamento e errou seu único passe de 48 executados.

E o alto índice de acerto não é decorrente de uma produção pouco objetiva. Hazard chutou a gol quatro vezes, deu três passes para finalizações perigosas, participou da troca de bola que gerou o primeiro gol de Pedro e marcou em cobrança de pênalti sofrido por ele mesmo. E o curioso é que, na temporada passada, o mesmo Hazard viveu fase apagada no Chelsea comandado por José Mourinho. É claro que ideias arrojadas sempre vão agir a favor dos craques.

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