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Daniel Dórea

Detalhe Tático

Ter, 21/02/2017 às 07:13

Xodó e reserva

Jornalista d.dorea@hotmail.com

Não deve ser exclusividade da torcida do Bahia, mas posso falar do que eu sei. A turma tricolor tem uma mania estranha de criar xodós que não merecem o tratamento especial.

Lembro de cara do paraguaio Wilson Pittoni. Um craque, diziam muitos. Na verdade, é aquele meio-campista que não faz gol, não dá assistência, atua em um espaço de campo pequeno e monopoliza o jogo. Busca a bola no pé dos zagueiros para girar com ela, pensar, pentear e empurrá-la lentamente a um colega, excluindo qualquer possibilidade de rapidez na jogada.

Como os passes acertavam quase sempre o alvo e o paraguaio exibia uma relativa – apesar de inócua – qualidade técnica, era adorado por parte da torcida, que não entendeu quando o então técnico Sérgio Soares (isso foi em 2015) o afastou da equipe.

E o que falar de Fernandão? Um colega mais velho – que já viu no Bahia Cláudio Adão, Charles, Marcelo Ramos e tantos outros – considera o ogro o melhor centroavante da história do clube. E o clamor pela volta dele, atualmente no Fenerbahce-TUR, é enorme.

Fernandão fez sucesso circunstancial no Tricolor. Em 2013, era o homem de área em um dos inúmeros times desprovidos de senso tático que povoam a trajetória do clube. As únicas soluções eram os chutões para a frente, que contavam com as ‘raspadinhas’ de cabeça do grandalhão, e os chuveirinhos à área para que ele brigasse pelo gol de cabeça. Foi o artilheiro da equipe e um dos responsáveis pela salvação da degola naquele ano. Mas é tosco. Sua intimidade com a bola é semelhante à minha com as pistas de dança.

Em 2016, os tricolores ganharam um novo xodó: Juninho. Não o coloco no mesmo rol de Pittoni e Fernandão. Mas, sim, o meia é supervalorizado. Poucos compreenderam quando Guto Ferreira o transformou em reserva há pouco mais de uma semana. Eu também demorei, porém, consegui realizar, e a justificativa é razoável.

Diferentemente de Pittoni, Juninho tem um apuro técnico que não é inócuo. Seu problema é não saber aproveitar o próprio potencial. Especialista em chutes e passes ousados, limita sua capacidade decisiva ao posicionar-se de forma muito conservadora. Assim como Pittoni, gosta de buscar a bola na defesa para ‘fazer’ o jogo. Na maioria das vezes acerta, com passes curtos ou longos, mas para por aí. Dificilmente aparece à frente para finalizar. Na área ofensiva sua entrada parece ser proibida.

Centralizador

Outro ponto importante: Juninho atua quase que só com a bola. É raríssimo vê-lo movimentar-se fora de sua zona de conforto na intenção de receber o passe de um companheiro. O fato de ele centralizar em si a função de construir o jogo em nada contribui para o time, que tende a tornar-se previsível. Você o verá se mexer mais intensamente em busca da bola só quando ela estiver com o adversário. Tem ímpeto na tentativa de desarmar rivais, entretanto, às vezes exagera ao arriscar o bote fatal. Quando erra, costuma abrir espaços para o oponente avançar pelo meio.

No infográfico, comparo – via ilustração do site Footstats – exemplos de mapas de calor de Juninho e Edson, o novo titular do setor, no Brasileiro do ano passado. Então no Fluminense, Edson exibiu seu diferencial no clássico Fla-Flu da Série A-2016 (à direita no infográfico). Ele está longe de ter a qualidade técnica de Juninho, mas compensa com um senso tático superior. Quando o time tem a bola, avança pelos lados e também se faz presente na área ofensiva em ocasiões pontuais. Juninho, como se vê em sua movimentação no duelo com o Criciúma na Série B-2016, concentra todo o seu jogo entre as intermediárias. Vai bem, mas não evolui.

No jogo de domingo – Bahia 2x1 Juazeirense – Juninho deu assistência para o gol do triunfo, mas em cobrança de falta. Até que tentou variar mais seu repertório, chegou a concluir nas proximidades da área em lance de troca de passes. Não deixa de ser um alento.

O ideal seria fazer o antigo titular entender que pode produzir mais com uma movimentação de maior amplitude. Que pode fazer mais gols, dar mais assistências. Guto deve tentar convencê-lo disso há tempos. Enquanto não consegue, é compreensível que tente experimentar outra alternativa.

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