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Daniel Dórea

Detalhe Tático

Ter, 07/03/2017 às 07:06

A beleza da retranca (Ônibus azul)

Jornalista d.dorea@hotmail.com

Antes de tudo, preciso confessar que estou orgulhoso do título desta coluna. Reparem no charme do complemento entre parênteses, como se fosse um segundo título. Já balancei muito ao som de Hey Hey My My (Into the Black), de Neil Young, curti na adolescência a agitada 1965 (Duas Tribos), da Legião Urbana, e, anos depois, gastei o CD (What's the Story) Morning Glory?, do Oasis – este ganha pontos pela originalidade do parêntese à frente do título principal.

Jamais consegui reproduzir algo parecido em uma composição, mas, taí, apresento desta forma uma discussão sobre futebol. Afinal, pode uma retranca ser bela? O ônibus azul do Bournemouth provou no último sábado, no empate por 1 a 1 contra o poderoso Manchester United, que sim.

Curiosidade: o United hoje é treinado por José Mourinho, que causou furdunço ao ‘estacionar o ônibus’ no campo de defesa para segurar boa parte de suas vitórias pelo Chelsea na campanha do título inglês em 2014/15. Era o ônibus azul, a cor que representa a equipe londrina. O Bournemouth se veste de preto e laranja, porém, no sábado, por ironia, usou seu uniforme azul alternativo.

Pegue uma caneta e, no campo do lado direito no infográfico, ligue os círculos que correspondem aos jogadores dos Cherries. Com alguma imaginação, conseguirá ver o tal do ônibus – no máximo com um teto solar para incorporar o atacante Afobe, único que se posicionava em alguns momentos à parte das linhas.

Mas a retranca do Bournemouth foi circunstancial. O time teve o meia Surman expulso injustamente em uma confusão após cotovelada covarde de Ibrahimovic, do United, ainda no primeiro tempo. E os comandados de Eddie Howe – que fez fama ao levar a equipe da quarta à primeira divisão, e mantê-la na elite em seu ano de estreia com um estilo ousado de jogar (o que rendeu elogios do técnico Arséne Wenger, conhecido por ser partidário do futebol ofensivo) – se viram obrigados a abortar a missão da marcação pressão com o 4-4-2/4-3-3 (à esquerda no infográfico) para se fechar em um 4-4-1.

A transformação

Durante a primeira etapa, os Cherries repetiram o que vêm fazendo nos últimos anos. Tentavam sair jogando com a bola no pé e, quando ela estava com os Diabos Vermelhos, adiantavam a marcação para forçar os chutões do adversário. O problema é que o United está preparado para isso. É um time objetivo, vertical. Com jogadas rápidas e roubos de bola no campo de ataque, a equipe de Mourinho criou 10 oportunidades claras de gol no primeiro tempo. Só uma se transformou em bola na rede, com Rojo, após sobra de cobrança de escanteio. O Bournemouth empatou em lance de troca de passes que terminou em pênalti competido por Jones.

Após o ajuste de Howe para o tempo complementar, viu-se um United que não conseguia trabalhar no espaço mínimo deixado pelo rival entre as linhas de defesa e meio-campo – era praticamente impossível entrar no ônibus. Diante do cenário, o modesto time do litoral inglês abdicou de arriscar para voltar para casa feliz com o empate. E foi uma beleza. A coreografia dos movimentos dos nove atletas, a disciplina, a garra, contra a agonia desenfreada dos Red Devils, que só conseguiram levar perigo em dois chutes de fora da área e outros dois chuveirinhos – um deles gerou pênalti perdido por Ibrahimovic.

O Bournemouth não fez mais nada nos 45 minutos finais. Despachou quase todas as bolas de propósito para não prejudicar o posicionamento na recomposição defensiva. E em nenhum momento isso tirou a emoção da partida. Ou você a trocaria por Bahia de Feira 5x4 Galícia só pelos nove gols?

Período

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