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Daniel Dórea

Detalhe Tático

Ter, 14/03/2017 às 07:12

O signo da inércia

Jornalista l d.dorea@grupoatarde.com.br

Imagine-se num mar calmo, com um sereno vai e vem das ondas. Cansado do trabalho, das relações, de si próprio e tudo mais, você boia sem preocupações. A suave força das ondas não é capaz de te mover. E você permanece ali, alheio às formações que tocam a areia e voltam ao fundo para reiniciar o ciclo.

Lionel Messi protagoniza a cena, a grama faz figuração como o mar e os colegas de Barcelona são as ondas que vão e vem, sem ir a lugar algum, enquanto a estrela descansa ao vê-los passar.

“Messi já não joga. Em suas más partidas, é quando não quer correr. Fica parado no meio-campo, achando que organiza e quer fazer tudo. Foi mágico, mas creio que está em seu final”. Palavras que causam estranheza. O argentino não continua produzindo lances geniais esporádicos e sendo um indiscutível artilheiro (soma 39 gols em 39 jogos nesta temporada pelo Barcelona)?

A declaração acima é do técnico Raymond Domenech, que, acredita-se, na época em que treinava a França convocava ou deixava de fora atletas de acordo com seus signos. “Os jogadores de escorpião se anulam em campo”, explicou a um canal de TV francês. Robert Pires, destaque do Arsenal durante a Era Domenech à frente dos Les Bleus, foi um dos bons jogadores franceses nascidos entre 23 de outubro e 21 de novembro que sofreram com a exclusão – dentro dessa lógica esotérica, Pelé e Garrincha jamais deveriam ter atuado juntos.

A imagem descrita no primeiro parágrafo surgiu da minha mente. É estranho parecer concordar com um louco como Domenech. Discordo do excesso de radicalismo da opinião dele, mas, sim, quem testemunhou com atenção o desempenho de Messi nesta semana não pôde deixar de atestar sua gritante falta de estímulo para jogar e ser quem era – e o curioso é que esta foi uma semana histórica para o clube, que, na quarta-feira, aplicou sobre o PSG um 6 a 1 cirúrgico para o objetivo de avançar na Liga dos Campeões.

Neste domingo, Messi manteve-se inerte. Destaque absoluto da goleada, o poupado Neymar não atuou. E o Barça perdeu a liderança do Campeonato Espanhol ao levar 2 a 1 do Deportivo La Coruña.

Criação limitada

Sem Neymar, o time passou do esquema 4-3-3 para o 4-4-2, que transformava-se em 4-2-1-3 ao passo em que os meias abertos avançavam como atacantes e Messi posicionava-se na intermediária ofensiva para o trabalho de criação no meio-campo. Os companheiros sempre o procuravam, mas as jogadas não fluíam. Seu desanimado caminhar contrastava com a correria dos demais 19 jogadores de linha.

Famoso pelas imparáveis arrancadas, o camisa 10 investiu nesse tipo de lance apenas cinco vezes, e sem convicção. No infográfico, é fácil perceber sua movimentação limitada apesar dos 63 toques na bola – não estão computadas as cobranças de bola parada.

Messi entrou na área ofensiva três vezes, e em só uma ocasião conseguiu completar uma finalização a gol. No campo defensivo, teve quatro partipações. Em números, não contribuiu para o sistema de marcação – saiu zerado em desarmes, interceptações e até faltas cometidas. Praticamente limitou-se a execuções de passes laterais/não incisivos (representados pelos 39 círculos amarelos no infográfico) e erros que custaram a posse da bola (os 20 círculos vermelhos correspondem às nove vezes em que foi desarmado, além dos 11 passes, lançamentos e cruzamentos errados). Os quatro círculos azuis ilustram os raros lances agudos do argentino.

Precoce, Messi estreou como profissional aos 16 anos. Agora aos 29, por vezes parece um veterano de 36 à beira da aposentadoria. Estaria o maior craque que eu acompanhei no futebol de fato próximo do fim da carreira, como prevê Domenech? Detalhe importante: Messi é canceriano.

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