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Daniel Dórea

Detalhe Tático

Ter, 21/03/2017 às 07:20

Um viva ao automático

Jornalista l danieldorea@grupoatarde.com.br

Salivamos com o cheiro daquela comida caseira preparada no capricho. Adoramos produtos artesanais de todos os tipos, sejam para comer, vestir, enfeitar ou seja lá o que for. Gostamos do criativo, exigimos originalidade, repudiamos a pasteurização social.

Podemos encaixar nossa preferência também no futebol, esporte no qual os jogadores inventivos sempre foram os mais admirados. Dizemos sim ao estilo livre de atuar, rejeitamos a burocratização da bola.

É assim mesmo. As coisas belas, as obras de arte, as incríveis descobertas saem de nossas mãos e mentes. Nenhum automatismo será capaz de superar isso. No entanto, é fato: nada pode ser mais eficiente do que o automático. Nos últimos três anos, o mundo da bola tem sido dominado por um grande robô com 11 peças precisamente sincronizadas.

Desde a era José Mourinho, quando o DNA contragolpeador começou a desabrochar, passando pelo aperfeiçoamento promovido por Carlo Ancelotti até chegar a mais um processo evolutivo com Zinedine Zidane, o Real Madrid veio se transformando neste ‘monstro’ do sucesso. Todas as peças trabalham de acordo com o que necessita uma, a matriz, aquela que direcionou a moldagem do estilo do time merengue a partir de sua chegada, em 2009. A potência e a eficácia de Cristiano Ronaldo só podem ser exploradas ao máximo desta forma, com uma rigidez até certo ponto bela também.

Atenção ao infográfico abaixo. Nele, ilustro o lance do primeiro gol do Real no triunfo do último sábado, por 2 a 1, sobre o Athletic Bilbao. A bola está nos pés do goleiro Kepa, do time basco, mas o sistema operacional merengue já projeta o ataque que virá nos instantes seguintes.

Benzema, Cristiano Ronaldo, Bale, Kroos, Modric e até Casemiro – um tipo de jogador que ainda teimamos em chamar, aqui no Brasil, de primeiro volante ou cabeça-de-área – anulam qualquer tipo de opção de saída com a bola no chão e Kepa é obrigado a chutar para frente. Devido ao posicionamento adiantado dos demais, os zagueiros também avançam. Excelentes pelo alto, têm chance muito grande de ganhar a disputa pela sobra do chutão. É o que acontece.

Quando Sergio Ramos sobe para desviar de cabeça, Marcelo e dois dos meias do Real já se aproximaram para tomar conta da bola. O lateral brasileiro toca para o compatriota Casemiro, que só precisa dominar a redonda e ajeitar o corpo antes de transformar um simples ganho de posse de bola em lance de gol.

Engrenagem final

Percebam. Não trata-se de uma grande ideia, uma visão além do alcance, como têm ou tinham os grandes maestros da história do futebol. É apenas o automatismo em funcionamento. Casemiro não precisa nem levantar a cabeça para executar um lançamento de 40 metros e acionar a engrenagem da arrancada de Cristiano Ronaldo, que, após pressionar a saída de bola do adversário, havia retornado à intermediária já caindo pela ponta esquerda para fugir da marcação mais centralizada da defesa e aproveitar o espaço para correr, geralmente maior nas laterais do campo.

Obviamente, ninguém seria capaz de alcançar CR7 nesta condição. O astro avançou com apenas um toque na bola e serviu Benzema, que também havia retardado – aparentemente de forma proposital – sua recomposição após o chutão do goleiro. O francês finalizou de primeira para a rede.

Não fujo de minhas convicções. Assim como prefiro comida caseira, vibro mais com o inesperado no futebol. Do Barcelona podem sair lances espetaculares e improvisações que jamais darão o tom neste Real Madrid. É minha visão de observador neutro. Se fosse torcedor, iria preferir que meu time passasse a firmeza e a constância merengue.

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