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Luiz Teles

Luiz Teles

Sáb, 26/11/2016 às 09:51

Sem riscos?

Jornalista l luiz.teles@grupoatarde.com.br

Guto Ferreira chegou ao Bahia com o time em queda vertiginosa na Série B. Apesar do elenco forte para a competição, sobretudo se comparado à maioria dos adversários, a equipe não demonstrava em campo a superioridade que tinha no papel e, sem confiança, tinha o meio da tabela como destino certo para o restante da temporada. A chegada do treinador, sem dúvida, mudou o Tricolor para melhor. Mas por que há entre os torcedores e imprensa uma rejeição tão grande ao seu trabalho?

A resposta parece difícil, mas é simples: o Bahia, quando vence, raramente convence, além de deixar escapar constantemente pontos certos, sobretudo nos jogos fora de casa. Culpa do treinador? Em grande parte, sim, mas, ao avaliar sua performance no Esquadrão, não podemos simplesmente esquecer os pontos positivos de sua passagem no Fazendão. Poucos, entretanto, importantes.

Sem contratações de peso e após algumas dispensas, Guto Ferreira não teve aquele esperado ‘upgrade’ de elenco que todos os técnicos sonham ao chegar numa nova praça. Se virou com o que tinha ou com peças de qualidade técnica semelhantes àquelas que seu antecessor, Doriva, trabalhou.

O grande mérito de Guto é que, em seus quase seis meses em Salvador, ele prezou pelo simples para tentar levar o Bahia de volta à Série A. Além de mexer com o brio do combalido elenco, o treinador mudou o Tricolor sem avacalhar com a estrutura mínima deixada por Doriva, com seu 4-3-3 (ou 4-1-4-1).

Na verdade, Guto optou apenas por escalar atletas com melhor desempenho nas bolas aéreas, levando gradativamente ao time titular jogadores como o zagueiro Tiago, os volantes Luiz Antônio e Renê Júnior, além de manter lá na frente atacantes com mais altura e força, como Hernane, Edigar Júnio e Vitor Rangel. Com isso (e muito treinamento, óbvio), solucionou o grave problema da bola aérea defensiva e ofensiva, e o Bahia consistentemente passou a fazer mais gols e sofrer menos ao longo dos jogos, e os pontos e triunfos começaram a aparecer. Não foi uma tarefa fácil, principalmente porque ele conseguiu, mesmo com as mudanças de peças, transmitir confiança ao grupo e mantê-lo estável psicologicamente.

Os elogios ficam por aqui. Porque foi justamente a escolha pelo ‘simples’ que fez com que o Bahia se tornasse um ‘time de uma nota só’ na Série B. Ao optar por um time alto, Guto Ferreira matou os contra-ataques do Tricolor. Ao manter o esquema tático e sua estratégia de jogo, e quase não alterá-los ao longo das partidas, faz sua equipe ser óbvia demais para os adversários, sendo facilmente anulada pelas mais fracas e ingênuas defesas. O negócio é fazer a bola chegar às laterais e mandá-la para área para ver se dá certo. Com isso, raramente é pego desprevenido e pouco sofre contra-golpes, mas também cruza mais de 50 bolas por jogo, com aproveitamento baixíssimo nas disputas de seus atacantes com os zagueiros.

É paradoxal, mas é verdade. O maior risco que Guto Ferreira corre em sua passagem pelo Bahia acontece exatamente por ele não correr riscos. Espero que sua versão 2017, com o Tricolor de volta à Série A (tomara!), seja menos prudente e com mais alternativas. Na Primeira Divisão, o jogo é outro.

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