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Luiz Teles

Luiz Teles

Sáb, 03/12/2016 às 10:09

Sobre a Chape e a vida

Jornalista l luiz.teles@grupoatarde.com.br

Fiz 40 anos na última terça-feira, justamente no mesmo dia da queda do avião da Chapecoense, na Colômbia. No voo, alguns conhecidos. Jornalistas com os quais havia divido coberturas e jogadores que passaram pelo futebol baiano, sobretudo o craque Mario Sérgio. A tragédia tratou de potencializar as inúmeras reflexões pessoais que naturalmente afloram em datas emblemáticas, como a de um aniversário para entrar na turma dos ‘enta’.

Não sou muito bom com textos carregados de sentimento. Sou muito duro com as palavras para externar com precisão a montanha-russa de emoções da semana que passou. E diante de um turbilhão de matérias e mensagens sobre o assunto, sinto que pouco tenho a acrescentar ao que já foi dito. Mesmo assim, apesar da reta final do Brasileiro, da ida do Bahia à 1ª Divisão, do fantástico Marinho, do título da Davis para a Argentina e da aposentadoria de Rosberg, não seria capaz de escrever hoje uma linha sequer sobre outra coisa.

O acidente em Medellín chegou para mim, ao acordar na manhã de terça-feira, como pura tragédia. Um choque que compartilhei com o mundo, numa cobertura que, mesmo a distância, trabalhei por quase 16 horas consecutivas. Ao pensar em minha família a cada notícia, a empatia só me fazia sofrer ainda mais com todo o desespero de impotentes pais, mães e filhos assistindo pela tevê ao fim de vidas de maneira tão estúpida e inesperada. Ao voltar para casa, exausto, tentei dormi e não consegui. Sem parar, pensava na queda e lamentava pelas vítimas daquele acaso. Quantas vezes estive ou tive amigos muitos próximos em voos tão semelhantes?

Esperava que no dia seguinte conseguiria digerir melhor tudo aquilo. Só que aí descobrimos aos poucos que a tragédia não tinha nada de “pura” e que o “acaso”, no mínimo, ganhou uma forcinha do desgraçado ser humano. A falta de gasolina no avião supostamente aconteceu por conta de uma política mesquinha e irresponsável de seu proprietário, mas preocupado com os poucos níqueis que economizaria do que com a segurança dos passageiros. O piloto, sócio da empreitada e aparentemente cúmplice do que, se comprovadas as suspeitas pelas autoridades, hoje me parece um homicídio em massa, disfarçou o real problema da aeronave para evitar uma multa e uma possível suspensão.

O que era só lamento e tristeza virou também raiva e indignação. Sentimentos que só aumentavam ao enxergar os indícios de que a deplorável Conmebol indicava a LaMia (que tinha apenas um avião em serviço) para diversas delegações, num daqueles clássicos casos de empresas que, com ou sem concorrência, não possuem ‘cacife’ para exercer uma atividade para a qual foram contratadas.

Seria mais um dia inteiro de trabalho com o estômago embrulhado, mas não foi. À noite, as manifestações nos estádios mexeram comigo (e, acredito, com muita gente também). O mesmo ser humano capaz de colocar vidas em risco por ganância pode também se solidarizar de maneira forte e singela. Ato que só não foi maior do que a cena protagonizada pela mãe do goleiro Danilo, ontem, em entrevista ao vivo ao repórter Guido Nunes, da Sportv. Ela inverteu a situação e questionou o jornalista: “Como vocês da imprensa estão se sentindo tendo perdido tantos colegas?”.

Visivelmente emocionado, Nunes não conseguiu responder. “Posso te abraçar em nome da imprensa?”, seguiu a mãe de Danilo, que perdera um filho há 48 horas, naquela situação. Ela, então, deu um prolongado abraço e enxugou as lágrimas do repórter.

Ainda estou consternado, mas aquilo devolveu a minha paz. Já dá para encarar mais 40 anos acreditando num mundo melhor para meus filhos.

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