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Luiz Teles

Luiz Teles

Sáb, 25/02/2017 às 08:15

Disparidade absurda

Jornalista l luiz.teles@grupoatarde.com.br

Não é novidade para ninguém que o ambiente esportivo é historicamente e – muitas vezes até – explicitamente machista. Os traços da disparidade de tratamento dispendido a homens e mulheres são muitos, e vão desde duvidar da capacidade feminina de realizar uma performance de alto nível, até a motivação que leva federações internacionais e nacionais, patrocinadores e governos a se dedicarem e investirem mais tempo, esforço e dinheiro em equipes, eventos e atletas do gênero masculino.

A situação não é exclusiva do mundo esportivo, mas me incomoda muito o fato de poucos se movimentarem para dar um basta a este reflexo cultural dentro de um ambiente que deveria primar por valores como tratamento igualitário e respeito às diferenças.

Hoje, segundo levantamento da rede inglesa BBC, em 30% das 56 principais competições esportivas mundiais, as vencedoras de modalidades femininas recebem menos dinheiro do que os vencedores de modalidades masculinas em prêmios. O mais popular e importante esporte do planeta, o futebol, administrado pela bilionária Fifa, é responsável por uma das maiores distorções. Enquanto a Alemanha, campeã mundial de 2014, no Brasil, ganhou US$ 34 milhões pelo feito, as mulheres dos EUA, campeãs mundiais do mesmo torneio, em 2015, ganharam US$ 2 milhões. As entidades responsáveis pela promoção de eventos que carregam disparidade na premiação entre gêneros, justificam os valores pondo a culpa no ‘mercado’, que paga mais pelos mais tradicionais disputa entre homens.

Mudar um cenário como esse, oriundo de séculos de uma cultura machista e misógina, não é tarefa fácil nem rápida. Contudo, não podemos ficar acomodados pela justificativa da 'economia livre'. Correr atrás de mudanças em prol de equiparações, com urgência, é uma obrigação de todos os envolvidos neste ambiente, desde governantes, dirigentes e atletas, até mesmo nós da imprensa esportiva.

Por isso, em uma época de tantas notícias negativas vindas de nossos políticos em Brasília, é de se louvar que, ainda que embrionariamente, está na pauta da Comissão de Educação, Cultura e Esporte um Projeto de Lei que iguala premiação para homens e mulheres para eventos promovidos com verba pública ou por entidades que recebam dinheiro público, como as confederações de esportes olímpicos e paralímpicos.

Por meio de programas de incentivo de isenção fiscal, patrocínios de empresas estatais e leis federais como a Lei Agnelo/Piva, que destina 1,7% do prêmio pago aos apostadores de todas as loterias federais do país ao COB (que redistribui parte do montante às confederações), o dinheiro público é de longe o maior investidor do esporte olímpico nacional. Além disso, no Brasil, diversos campeonatos são realizados com verba estatal, por meio da lei de incentivo ao esporte. Poucas confederações não recebem hoje um desses incentivos. A de futebol, da rica CBF, é uma das raras exceções.

É ainda apenas um Projeto de Lei em discussão numa comissão de um imprevisível Senado brasileiro, mas é um alento em tanto para seguir em frente e ter esperança de dias melhores para o nosso esporte.

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