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Luiz Teles

Luiz Teles

Sáb, 11/03/2017 às 10:11 | Atualizado em: 11/03/2017 às 12:19

A melhor das regras

Jornalista l luiz.teles@grupoatarde.com.br

Desde meus primeiros anos de vida (reza a lenda que desde os oito meses de idade) sou um frequentador assíduo de jogos de futebol. Com uma família fanática pelo Bahia, portadora de cadeiras cativas na Fonte Nova, era fato raríssimo a minha ausência numa partida, sobretudo após completar 10 anos e ganhar permissão de meus pais – depois de muito insistir – para assistir aos duelos noturnos.

E ainda que apenas descrever essa rotina me cause arrepios de saudades, esta coluna não é sobre as fortes emoções de minha relação com esporte e família, mas sobre uma regra conjunta que tínhamos e que jamais foi quebrada enquanto íamos juntos ao estádio: “Não importa o que acontecer, quanto esteja o placar ou qual seja sua pressa para ir embora, só saímos da Fonte Nova após o apito final do juiz”.

Gostava da tal regra. O Bahia sempre acabava marcando algum gol no final, a maioria deles sem qualquer valor para o triunfo, no estilo 'final de baba'. Era legal também o urro de comemoração da torcida (“eeeeehhhhhhh”) ao trilar do apito, com estádio vazio ou cheio. O mais importante, contudo, era ter a certeza de que jamais iria me vitimizar por ter perdido um lance importante de um jogo, um gol da vitória, uma reação diferente da torcida etc.

Nós, frequentadores de estádios, esperamos às vezes uma vida inteira esportiva para desfrutar de um momento único como espectadores. Os lances memoráveis são muitos e acontecem com alguma constância, mas para mim, por muitos anos, sempre ficava a sensação de que um dia o ‘esforço’ de ficar até o fim, sempre, seria compensado. Em 11 de agosto de 1994, com o célebre gol de Raudinei e aos 17 anos de idade, confesso que dei muita sorte e meu tempo chegou cedo. Ainda que a cada campeonato uma nova porta se abra para este tipo de realização, sei que minhas chances de ver algo parecido de novo são baixíssimas.

E eu não tenho dúvidas que só assisti ao gol de Raudinei, no estádio, por conta da tal regra. Num dia de Fonte Nova lotada (eram mais de 100 mil presentes) e num domingo véspera de aula, muito estudo e treino de basquete para um terceiranista, ir para casa mais cedo e evitar as chacotas rubro-negras era o mais conveniente e prudente a ser feito. Não o fiz e minha hora, ainda bem, chegou...

Agora fico pensando apenas no cidadão catalão que deixou o Camp Nou – lotado com mais de 100 mil pessoas – quando, aos 40 do 2º tempo, o placar apontava 3 a 1 para o Barcelona contra o PSG. Foram muitos – e tenho certeza que no Ba-Vi de 1994 também foram (mas nenhum tricolor assumiria isso, eheheh). A espetacular virada, com falhas da arbitragem, golaços e um turbilhão de emoções, jamais se repetirá e a pessoa vai se martirizar o resto da vida por seu instinto de defesa em querer deixar o estádio mais cedo. Não queria estar em sua pele. Na verdade, fico feliz por ter a certeza que jamais estarei.

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