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Manno Góes

Coluna do Manno

Qui, 16/03/2017 às 07:19

Precisamos falar sobre Eliza

Músico l manno.goes@grupoatarde.com.br

Com licença, Bahia, mas precisamos falar sobre Eliza. Não se trata apenas da reinserção ao mercado de trabalho de um ex-presidiário qualquer. Trata-se da mensagem. Da imagem que vem junto com o pacote. Do impacto social.

Que mensagem se passa à sociedade quando um cúmplice de um assassinato bárbaro, cometido por motivos fúteis, com graus de crueldade e frieza, está de volta aos campos sete anos apenas após seu crime absurdo?

O país é um dos recordistas em crimes contra as mulheres. Recentemente, no Dia Internacional da Mulher, o Cruzeiro fez uma bela homenagem, chamando atenção para os números espantosos de violência contra a mulher no Brasil. Qual a mensagem que o Boa Esporte colocará em suas camisetas no Dia Internacional da Mulher ano que vem? Uma foto de um Rottweiler?

Claro que todo criminoso tem direito a, após cumprir sua pena, ser ressocializado. Ainda que sete anos possam parecer muito pouco para uma mãe que não verá a filha nunca mais, Bruno, pelo menos aos olhos da Justiça, tem direito à sua liberdade. Sendo assim, que seja reintegrado, reposicionado no mercado de trabalho e ressocializado. Mas assim? Dentro do futebol? É como Guilherme de Pádua ser contratado para atuar em uma novela ou Suzane von Richthofen tomar café da manhã com Ana Maria Braga no Dia das Mães.

O esporte, sobretudo o futebol, como elemento cultural de grande importância no país, deveria ter o comprometimento de banir atletas que cometessem crimes de tal natureza. Assassinato não é um crime qualquer. Há uma série de simbologias e mensagens subliminares envolvidas quando um assassino sai da cadeia e volta aos campos como se nada tivesse acontecido. Há crianças que se espelham em seus ídolos. Há modelos que não devem ser estimulados.

Indefensável

No livro ‘Indefensável’, de Leslie Barreira Leitão, Paula Sarapu e Paulo Carvalho, acompanhamos em detalhes a frieza, monstruosidade e psicopatia do goleiro Bruno diante do assassinato de Eliza, mãe de seu filho. Revela os bastidores do julgamento e a certeza que Bruno tinha de que sairia impune. Afinal, não haveria cadáver nem testemunhas. Ele só não contava com a consciência pesada do seu primo e com as evidências que o levaram à prisão.

De todo esse lamentável episódio, fica a satisfação de ver patrocinadores incomodados cancelando contratos com o Boa. Fica também a certeza de que o Boa Esporte, atual campeão da Série C, na ânsia de obter visibilidade e reforços a qualquer custo para a disputada Série B que está por vir, esqueceu que, para ser grande, primeiro tem que agir como tal. Não como um time que se apequena e se torna cúmplice do machismo, do feminicídio e da banalização da violência. A torcida do Boa não merecia ser cúmplice da afirmação que diz que o crime compensa. Porque é isso o que está acontecendo.

Quanto a Bruno, bem... Quem não lembra dele falando que “um dia ainda iria rir muito disso tudo”? Pois é...

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