Carnaval

Sáb , 02/02/2013 às 13:15 | Atualizado em: 02/02/2013 às 12:52

Missinho relembra carreira e anuncia novo CD

Mariana Mendes

  • Mila Cordeiro | Ag. A TARDE

    Missinho, que fez parte do Chiclete com Banana, segue em carreira solo e prestes a lançar novo CD

Músico desde os 17 anos e fascinado pelo Carnaval, Missinho Amorim, que já foi vocalista do Chiclete com Banana na década de 80, continua o mesmo. Aos 50 anos ele mantém a mesma cabeleira e a paixão pelo seu trabalho. Missinho tem uma vida reservada e longe dos holofotes, que ele prefere chamar de "show business" ou indústria da música baiana, onde, como acredita, existem os artistas que se destacam por ter talento e outros por ter grana.

Compositor, instrumentista e cantor, Missinho continua fazendo shows, principalmente nos períodos de Carnaval e São João, com composições que marcaram a carreira, como o forró "No Lume da Fogueira". Há oito anos montou um estúdio onde grava suas novas composições e faz a produção musical de artistas ainda pouco conhecidos. O cantor revela que um novo CD, ainda sem nome, deve ser lançado logo depois do Carnaval. "No CD Abracadabra, lançado em 2011, me dediquei às regravações, algumas que ainda da época do vinil. Neste vou trazer novidades, mistura de ritmos", conta. O novo repertório, revelou, será formado somente por músicas inéditas ao som de muitos instrumentos, principalmente a guitarra baiana.

Falta magia - Na casa de sua produtora, o cantor conversou com o A TARDE e recordou os Carnavais passados. Para o artista o festa baiana não é mais a mesma e aos poucos tem perdido sua magia. "Existia uma espontaneidade muito grande que está morrendo. Não falo por saudosismo, mas com um sentimento de quem está vendo isso se perder", comenta. Para o cantor o carnaval está perdendo suas características mais marcantes, que seria a de uma festa popular. "Tenho uma pena muito grande do Carnaval e do povão que vai às ruas. Hoje o que vemos é um Carnaval feito para a elite", diz.

Das lembranças vividas na folia, que são muitas, Missinho diz que teve a honra de tocar com Osmar Macedo, inventor do trio elétrico ao lado do amigo e parceiro Dodô (Antonio Adolfo Nascimento). Ao ser perguntado se ele tinha o desejo de tocar novamente com alguém, Missinho disse que era um desejo impossível, pois apesar de ter conhecido grandes artistas e músicos, a companhia que gostaria de reencontrar em cima dos trios era a de Osmar. "Ele é uma figura que deixou uma saudade muito grande. Tinha uma juventude arrebatadora. Eu tinha uns 20 anos quando toquei com ele e ficava olhando, observando e admirado sua energia. Me apaixonei de primeira pela aquela emoção. Me perguntava como ele podia ter aquela energia toda? Depois eu mesmo me respondia dizendo: poxa, um cara que inventou o trio elétrico tinha que ser assim mesmo", disse aos risos e lamentou: "Ele faz falta no Carnaval".

Passagem pelo Chiclete - Quando o assunto é a sua passagem pelo Chiclete com Banana, uma das bandas baianas mais consagradas, Missinho fala com tranquilidade e diz que em nenhum momento lamenta ter deixado o grupo, em 1986, durante a micareta de Feira de Santana. "Saí por que queria fazer outras coisas, sons novos, diferentes e foi o que fiz. Minha viagem era outra. Foi melhor assim", explica o cantor, que em carreira solo lançou o LP "Neons Do Guetos" e vendeu 100 mil cópias, conquistando o disco de ouro da carreira.

Missinho entrou para o Chiclete com Banana em 1980, quando o grupo ainda se chamava Scorpius. O convite veio dos irmãos Washington (Bell), Waldemar (Wadinho) e Wilson, que estavam no micareta de Feira de Santana e gostaram de ver a apresentação de um vocalista cabeludo que tocava guitarra baiana em cima de um trio elétrico. Missinho tinha 19 anos e para o grupo entrava, de uma só vez, um cantor, compositor e guitarrista. O Chiclete com Banana virou febre com os hits "Sementes" e "Mistério das Estrelas", ambas composições do cantor.

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Valores - Quanto ao sucesso ou a falta dele, Missinho é bem pragmático. "O grande barato da música é vivê-la. O sucesso é uma consequência. O grande valor do músico é ser respeitado e reconhecido pelos colegas", diz. Se a decisão de deixar os Chicleteiros lhe causou arrependimento, o cantor diz que não: "Não me arrependo de nada. Se pudesse voltar no tempo teria feito tudo igual ou, no mínimo, parecido", enfatiza. O cantor não tem nenhum contato com grupo.

Se sente falta do reconhecimento e assedio dos fãs, Missinho diz que quando o Chiclete estourou e o grupo ficou conhecido ele realmente ficou surpreso. "Eu não tinha consciência na época. O sucesso pode modificar o artista. Lugares que eu ia frequentemente eu não podia mais ir. Uma vez tive a camisa rasgada por umas fãs. Depois fomos aprendendo a lidar com isso e era tranquilo. Mas, a gente não tava acostumado a ver isso por aqui", conta. O cantor lembra que foi uma fase muito boa em sua vida e na carreira, mas que não sente saudade, porque como bons momento ele também viveu vários outros. "Estou vivendo um bom momento agora", acrescenta.

O que mudou dos 19 anos para hoje, o cantor diz que se tornou uma pessoa bem mais tranquila. "Sou quase zen", brinca. "Naquela época era tudo uma loucura. Tinha a energia da juventude. Só pensava em mostrar a minha música", explica.

Missinho não se considera um músico do Axé Music. Ele prefere ser lembrado como carnavalesco, pois, apesar de suas composições serem sucessos no gênero musical, prefere não rotular seu trabalho. "Tenho composições bem diferentes, gosto de fazer coisas diferentes, por isso prefiro não classifica-las assim", explica.

Quanto ao público, Missinho diz que sempre foi bem recebido e que, como compositor, é gratificante ouvir as pessoas cantarem suas músicas. Ele diz que a Bahia consegue reunir grandes músicos, porém, infelizmente, nem todos caem nas graças dos empresários e da mídia. "Tem muita gente boa que não aparece na TV. Sempre está rolando algo legal em Salvador. E quem gosta de boa música sempre sabe onde encontrá-la", declara.

Por hora, quem quiser ouvir Missinho ele estará no dia 2 de fevereiro, Dia de Iemanjá, na feijoada do bar Seu Boteco, no Rio vermelho, ao lado de Laurinha Arantes. No repertório, ele promete um revival anos 80 e hits carnavalescos. Já no Carnaval, Missinho se apresenta no Pelourinho e em trio independente, conforme programação da prefeitura. Além disso, ele puxa o bloco da Ribeira, chamado "Bola Cheia", que desfila no Circuito Osmar (Campo Grande) no sábado e na segunda-feira.

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