Política

Qua , 13/11/2013 às 10:14 | Atualizado em: 13/11/2013 às 10:42

Disputa acirrada vai marcar eleições na Fieb

Donaldson Gomes

  • Fotos: Divulgação

    Carlos Farias e José de Freitas Mascarenhas disputam o comando da Federação das Indústrias do Estado

No dia 28 de janeiro de 2014, a Federação das Indústrias do Estado da Bahia (Fieb) vai enfrentar uma eleição para a escolha da nova diretoria. Se já não bastasse a relevância da entidade, cujo orçamento anual beira os R$ 700 milhões, a eleição ganha importância pelo caráter de ineditismo.Nas últimas décadas, não há registros de um enfrentamento eleitoral pelo comando da organização responsável por instituições de ensino e qualificação profissional, como o Sesi e o Senai, que tem como destaque o Cimatec.

O atual presidente, José de Freitas Mascarenhas, tem no currículo o trabalho de implantação do Polo Petroquímico de Camaçari na década de 70, e 12  anos de experiência à frente da Federação, antes do atual mandato de quatro anos. Em busca de um novo mandato, diz não ter concluído a missão de modernizar a entidade.  Mascarenhas conta ainda  que seu projeto inicial previa  reestruturar a Federação em quatro anos, mas o trabalho se prolongou além do esperado.

O outro candidato é alagoano de nascimento, mas vive há 41 anos em Juazeiro, na Bahia, onde construiu a Agrovale, que emprega quase cinco mil funcionários. É o interior da Bahia que Carlos Gilberto Farias pretende utilizar como trunfo para desafiar Mascarenhas. Ele tenta se apresentar como a voz dos pequenos e dos que estão longe da capital. Nesta quarta-feira, 13, a comissão eleitoral divulga o edital da eleição e A TARDE apresenta os principais projetos dos candidatos.

 

"O que me move é o desejo de  renovação"

"Meu objetivo é ajudar a melhorar a Bahia"

Por que o senhor quer ser presidente da Fieb?
Como um industrial que viveu de fato o interior, eu posso falar das dificuldades que a indústria baiana tem pela falta de ação efetiva da Federação das Indústrias como vetor de desenvolvimento do interior.

Como assim?
Se você vai em Alagoinhas e olha as cervejarias, não tem um destilador treinado. Vai a Feira de Santana, que é um município quase do tamanho de Maceió, de Aracaju, e não tem um escritório da Fieb, onde o industrial possa bater na porta, sentar e dizer  "quais são os serviços da Fieb aqui?". O que me move, falando francamente, abrindo o peito, é o desenvolvimento da Bahia. Da outra vez em que pensei em ser candidato já existia a vontade da renovação. Eu acho que o motivo maior é a renovação da Federação, que já vem há 43 anos com um mesmo grupo de poder econômico na Bahia.

Na última eleição, o senhor chegou a se colocar, mas recuou. Alguma chance disso voltar a acontecer?
Quando eu lancei a minha candidatura, eu não tinha ainda uma vida cotidiana na Fieb. Hoje, ou eu estou na minha casa, ou na Fieb, ou na CNI. É a minha vida. Eu retirei a candidatura porque percebi que haveria um racha e não tinha a possibilidade de me eleger.  Aquiesci espontaneamente.

Desta vez...
Desta vez, não. Tenho compromissos com colegas, que demonstram uma vontade imensa e vou até o final. Vou para a eleição. Falando francamente, (José de Freitas) Mascarenhas está se movimentando muito, mas temos 30 bons colegas conosco. A vontade de mudar é tão grande que há um brio dos presidentes de sindicatos que nos apoiam. Nós queremos participação. Este inclusive é o nome de nossa chapa. Imagine que eu, mesmo sendo vice-presidente, nunca fui chamado a contribuir com nenhuma tarefa pelo presidente. Eu votei em Mascarenhas. Abdiquei do meu desejo. O problema é que o sistema atual é ditatorial.

O senhor expressou essa insatisfação para ele?
Não tem ninguém que tenha essa participação. Nem as pessoas ao lado dele. Nós queremos abrir espaços para todos ajudarem naquilo que sabem fazer de melhor. Estamos construindo uma chapa com industriais, consultores e gente que conhece bem a CNI, a estrutura do Senai Cimatec. Eu pretendo criar pequenos Cimatecs em cidades polos, como Feira de Santana, Alagoinhas, o Oeste da Bahia, Vitória da Conquista etc. Queremos criar centros que atendam as necessidades das regiões.

O que o senhor pretende manter da atual gestão e o que vai modificar?
Eu pretendo dar continuidade a todas as obras em curso. O Cimatec III e IV serão concluídos, com o prestígio, a presença e a ação, e vou fazer com que as obras pelo interior sejam concluídas. A equipe que a Fieb tem é ótima, mas depende de um bom comando. A relação não pode ser de "lá vem o homem" para ter respeito. Não pode ficar só na mesa, tem estar em cima. Temos 41 sindicatos e 36 estão na Região Metropolitana de Salvador. Vamos ter que deslocar esse eixo.

Mas essa realidade não é um reflexo do processo de industrialização da Bahia?
Sim, você tem  o Polo em Camaçari.

Então, como é que a Fieb poderia modificar isso?
Junto com o governo do estado. A Federação tem que dar o suporte, captar também indústrias que querem vir para a Bahia e, em consonância com o governo do estado, fazer acontecer. Ela tem que chegar rápido em Feira de Santana e abrir um escritório rápido, começar a construir o pequeno Cimatec, que se adeque ao parque industrial de lá. Vamos buscar recursos da Embrapii  (Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial) e outras fontes de financiamento para dar velocidade.

Como é que o senhor enxerga a relação entre o governo e a indústria?
É uma relação de convivência com respeito. Trata-se de uma relação de caráter político. A Fieb, cujo objetivo é dar suporte para a indústria, tem que buscar junto à Secretaria da Indústria e Comércio e ao governador (Jaques Wagner) acelerar a solução. Se tiver uma interface com autonomia e respeito, vai resolver o problema. Se você procurar o estado, consegue resolver a situação. A Fieb não vai fazer a obra, mas deve chegar junto do estado e cobrar.

O senhor pretende agir assim em relação ao estado?
Exatamente, com autonomia, mas com respeito. Agora, se você ficar muito imperial e disser que "o distrito não está pronto e por isso o empresário correu", não vai resolver. As pessoas dizem que Pernambuco cresceu demais e a Bahia não. A gente está cansado de escutar isso, mas o momento pernambucano consegue reunir do mesmo lado a Federação das Indústrias de lá, que comanda o processo, PT, PSB, PMDB, Pc do B, em prol do desenvolvimento industrial de lá.

Como está sendo para o senhor protagonizar uma disputa eleitoral inédita para grande parte da indústria baiana?
Tem muita gente perplexa, mas eu tenho recebido abraços e telefonemas de pessoas da sociedade, inclusive que nem militam na indústria, parabenizando pela coragem cívica do enfrentamento a essa estrutura de poder na Fieb. Sem querer ser cabotino, por onde passei na vida, fui vitorioso, mas foi trabalhando muito. Agora, é preciso ter uma equipe muito boa. Por exemplo, o desenvolvimento e o apoio à micro e pequena empresa. Os sindicatos pequenos têm que ser apoiados. Você pode até dizer que hoje apoia, mas no mesmo diapasão que o grande. Acontece que o pequeno precisa ser pegado pela mão.

O senhor disse  que tem o apoio de 30 sindicatos. Já encontrou espaço para todos na chapa?
Já. A chapa está pronta.

Todos terão espaços?
Alguns colegas não querem ter atribuições. Tem pessoas dedicadas, mas não querem o cargo. Mas não temos nenhum problema de fechar a chapa.

Existem  sindicatos que representam atividades significativas economicamente apoiando o Mascarenhas. Caso o senhor vença a eleição, como será a relação com eles?
Eu sou por temperamento espontâneo, mas com munheca. Você pode ser simples, cordato, mas com decisões. Confesso do fundo da alma que tratarei o Sinduscon, a indústria petroquímica e a todos muito bem.  Não dá para ficar magoado com quem discorda. Eu não consegui fazer inimigos na vida.

O senhor é irmão do falecido empresário Paulo César Farias, o PC Farias. Essa referência lhe incomoda?
Não. O Paulo, meu irmão, não está mais aqui conosco. Coitado, pagou um preço altíssimo, mas a vida é assim mesmo. Ele era um rapaz muitíssimo inteligente. Falava quatro idiomas, teve uma formação acadêmica muito consistente. Estudou em seminário, fez direito, foi o primeiro no vestibular, primeiro da turma e orador na formatura. Foi o maior comercializador de carros Dodge do Brasil. Agora, enveredou para o que todo mundo sabe. Eu não tenho nenhuma vergonha de dizerem "é o irmão de PC". Ele decidiu, contra a minha vontade, sair do país. Devia ter enfrentado tudo, mas não ouviu, fez o que quis. Contrariou a todos e a mim, por exemplo. A gente fica triste quando a coisa é posta de forma depreciativa, como estigma. Que culpa tenho eu disso? Eu vivi toda uma vida desatrelada desse processo. A investigação que foi feita sobre o Paulo foi muito séria. Tudo foi passado a limpo. Ninguém ficaria feliz de ver isso ser dito de forma depreciativa. Eu acho que a história dele já foi tão falada, esmiuçada que colocar isso para me depreciar não parece ser correto.

A Fieb vivencia um processo eleitoral novo para muita gente. Como está sendo a experiência?

É um processo inédito. Nós não tínhamos experiência neste tipo de eleição, mas para mim está sendo construtivo e eu tenho até que agradecer aos adversários. Tem sido uma oportunidade de aproximação com sindicatos e empresas para mim. Mas é bom para a indústria da Bahia também. É importante para que eles entendam os problemas da Federação. Agora, é um processo cansativo porque eu tenho que trabalhar o dia inteiro, a Federação não para.

O senhor é reconhecido como um presidente que já fez muito pela Fieb. Por que mais um mandato?
Eu levei algum tempo para decidir se iria pedir a reeleição ou não, que é algo normal e previsto no estatuto. E quero dizer que fui eu quem introduziu essa limitação a uma reeleição apenas. Quem me dera que todos os sindicatos tivessem isso também. Além de defender a renovação daqui, deveriam defender a renovação de seus próprios sindicatos. Bom, na minha vida, nunca gostei de deixar um trabalho pela metade. Eu lembro que eu estava no governo de Antônio Carlos (Magalhães, na década de 70) e recebi um convite para ser secretário-geral, uma espécie de vice-ministro e resolvi não aceitar porque o programa do Polo Petroquímico estava no meio. Fiquei, tudo terminou bem e o Polo está aí. Agora há uma situação semelhante. Depois disso teremos uma outra Federação, mais interiorizada, mais capacitada, ainda mais voltada para a micro e pequena empresa e olhando para o futuro.

Por exemplo, presidente?
Nós temos um programa para elevar a qualidade de ensino oferecida aos estudantes do Sesi. O programa de interiorização está pelo meio. Eu gostaria de executar para assegurar este trabalho.

Onde é que a Fieb vai chegar com esse programa?
Nós vamos chegar ao Oeste da Bahia, em Barreiras e Luís Eduardo Magalhães, em Ilhéus e Itabuna, a Vitória da Conquista, Feira de Santana e Juazeiro. Cada lugar terá um projeto próprio, diferente do outro. Vamos estreitar a comunicação com o interior. Não é só criar um edifício e uma base física, todos vão desenvolver ações de defesa de interesses e de formação. Esses locais foram escolhidos porque são bases industriais e vão funcionar como polos. Depois ampliaremos para outros que não foram imediatamente atendidos. Não podemos fazer coisas sem responsabilidade orçamentária.

Essa questão da interiorização é exatamente um dos pontos defendidos pelo seu opositor.  Por que só agora a Fieb está fazendo isso?
Quando eu voltei aqui, esse foi um dos programas prioritários. Não podemos ficar só no litoral. Agora, nós não estamos dizendo que vamos fazer, nós já estamos fazendo.

Uma outra crítica seria a falta de assistência  às micro e pequenas indústrias.
Isso é uma fantasia que querem colocar em cima de mim, mas na verdade, toda hora eu estou repetindo, a grande empresa é mais uma doadora de recursos do que uma absorvedora de recursos. A  maior parte dos nossos recursos vai exatamente para micro, pequenas e médias empresas. Nós temos números que mostram isso. Este ano nós já atendemos 2,2 mil estabelecimentos, dos quais 74% são de micro e pequenas empresas, 18% são médias empresas. As grandes empresas podem suprir as próprias necessidades. A diferença entre nós é que eu tenho visão de futuro. O problema é que as pessoas criam certas imagens.

De que a Fieb é voltada para as grandes empresas...
Isso é apenas uma imagem. Não tem comprovação com números. Eu quero discutir projetos, visões de futuro. Eu queria que se dissesse "esses projetos não servem, são ruins, o que eu tenho é melhor". Não pode ser a minha figura ou a de meu concorrente. É o que interessa para a Bahia. O ambiente no Brasil não é competitivo. Essa reforma tributária é prometida por três presidentes. A flexibilização das leis trabalhistas não sai porque ninguém tem coragem política. Isso gera custos para a indústria e não se vê uma solução. Temos que procurar ferramentas alternativas para tornar as empresas competitivas. Como? Com inovação. Estamos dando grande atenção a esses programas, que amadureceram agora, mas são trabalhados há muito tempo. Trazer supercomputadores para cá demorou três anos. Fizemos um centro de robótica, negociado há muito tempo. Nós estamos desenvolvendo o Cimatec III e IV, mas depois tem o V e o VI, que já está projetado para ser construído com recursos do BNDES. Sem  querer ser pernóstico, eu acho que posso ajudar a concluir esses projetos que são tão importantes.

Quatro anos dá para fazer isso tudo?
Não. Eu não uso espelho retrovisor, olho para a frente. Quem faz tudo isso que eu estou dizendo são as pessoas. Por isso dou tanta importância aos funcionários. Eu cheguei aqui e tinha desestruturação na base de pessoas e o tempo para reestruturar isso foi maior do que eu supunha. Tivemos que mudar também o sistema operacional,  que estava envelhecido. Eu vou deixar tudo funcionando. Hoje tudo anda bem, mas demorou. Eu acho que em quatro anos no máximo a gente deixa tudo pronto.

O senhor errou ao não preparar um sucessor?
Numa empresa, as coisas funcionam como obrigação. Na empresa em que eu trabalho, é obrigatório ter um substituto. Às vezes causa medo porque a pessoa pensa que está formando para o lugar dele. Mas é a condição para subir, deixar um substituto. Aqui dentro nós não temos a liberdade de proceder assim porque é uma associação. Eu confesso que gostaria de ter uma base mais ampla de pessoas para poder trabalhar. Agora, de uma forma ou de outra, vamos ter que fazer isso porque queira ou não, mesmo que seja reeleito, será a última vez que serei reeleito. Os técnicos daqui não podem trabalhar em um clima de que tudo vai desmoronar de uma hora para outra.

O senhor não pretende mais se candidatar?
Não é estatutariamente possível uma nova reeleição e após o intervalo já seriam oito anos. Quem me substituir terá direito a disputar uma reeleição.

Como é a relação da Fieb com o governo do estado?
É boa, muito boa com o governador. Essa pergunta me permite esclarecer algumas coisas.

O seu adversário é o candidato do governo?
Isso é ele quem diz. O governador não diz isso. Claramente ele me diz que é neutro e eu nunca o vi tomando atitudes para beneficiar um lado ou outro. Ouço muita informação sobre membros do governo, mas o governador é a referência. Eu me permito em determinados momentos criticar políticas do governo, não o governador. O porto tem 20 anos que eu digo que a gente precisa de uma solução, seja qual for. Eu realmente não acredito que isso interfere na relação que a gente tem. O ideal é trabalhar de mãos dadas porque o objetivo é comum, criar empregos e melhorar a Bahia. Já disse isso ao governador.

A chapa já está pronta?
Não, mas estamos preparando porque temos que lançar este mês. A nenhum de nossos companheiros foi prometido vir para o nosso lado com promessas de cargos. Não quer dizer que não tenha uma sugestão, mas o conjunto dos sindicatos que estão conosco entendem que há um projeto.

Dá para ganhar a eleição?
Eu não faço contabilidade, mas vejo grande parte dos sindicatos conosco. Não digo que tenho sei lá quantos. Mas acredito que dá sim. Até o último dia vamos continuar batalhando. Todo mundo tem direito de se candidatar.