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Seg , 22/06/2009 às 23:03 | Atualizado em: 23/06/2009 às 01:12

Guerra de espadas leva alegria e medo ao interior

Cristina Santos Pita*, da sucursal Santo Antônio

Tags: Bahia

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  • Matheus Magenta/Agência A TARDE

    O perigoso show de luz e fumaça atrai centenas de turistas, que acompanham o duelo de longe

Nesta terça-feira, 23, o São João esquenta em toda a Bahia. Motivo de diversão, mas também de temor. Em Cruz das Almas (a 146 km de Salvador),  25 pessoas já foram atendidas este mês na Santa Casa de Misericórdia da cidade por conta de queimaduras causadas por fogos de artifício. Destas, 22 se acidentaram com as famosas “espadas”. Mas o número certamente aumentará, pois nesta terça, a partir das 15h, e quarta, durante todo o dia e à noite, são os momentos principais da “guerra” que se estabelece nas principais ruas da cidade.

Senhor do Bonfim (a 375 km de Salvador) é outra cidade na qual a guerra de espadas é destaque. Lá, no Hospital Municipal Dom Antônio Monteiro, foi registrada até nesta segunda apenas uma ocorrência de queimadura provocada por exposição a fogos. Porém, nesta terça, acontece o Show de Espadas, evento tradicional de rara beleza, mas que resulta em grande número de queimados.

O trânsito de veículos é impedido nas principais ruas da cidade, das 17 às 23 horas. Logo na chegada da noite, as luzes das ruas são apagadas para que o efeito do show das espadas seja melhor percebido. Em Senhor do Bonfim serão queimadas mais de dez mil dúzias de espadas.

Em Salvador, o Centro de Tratamento de Queimados (CTQ) do Hospital Geral do Estado (HGE) atendeu 42 pessoas em 2008, mas não registrou nenhum atendimento até o meio-dia desta segunda.

Mas, de acordo com a Secretaria da Saúde do Estado da Bahia (Sesab), os acidentes nas festas juninas acontecem, em maior número, no período noturno dos dias 23 e 24 (terça e quarta). É quando o HGE recebe muitas vítimas da capital e, principalmente, do interior do Estado. 

Cruz das Almas – Até mesmo pela proximidade à capital baiana, a festa em Cruz das Almas é a que atrai maior número de pessoas, e, por conseguinte, demanda os maiores cuidados. Ano passado, entre os dias 7 e 24 de junho, 226 pessoas foram queimadas na cidade, principalmente na guerra de espadas.

Segundo o secretário municipal de Esportes, Cultura e Lazer de Cruz das Almas, Mário Araújo, várias reuniões foram feitas com cerca de 200 espadeiros na busca por uma “guerra harmoniosa”. “Foram vários encontros para restringir a guerra a pontos estratégicos da cidade. A espada é tradição, não podemos proibi-la, mas criamos meios de torná-la menos perigosa e com menos acidentes”, diz o secretário.

Para tornar mais ágil o atendimento, o HGE instalou em Cruz das Almas, em junho do ano passado, uma unidade avançada de atendimento a queimados, com 18 leitos, dos quais cinco são pediátricos. Alerciene Marina da Silva, enfermeira da Unidade de Tratamento de Queimados (UTQ), informou que 10 equipes vão trabalhar no setor durante os festejos, em Cruz das Almas. “Além de dois enfermeiros, teremos médicos plantonistas, entre eles um cirurgião plástico”, assegura a enfermeira.

Aos milhares – A estimativa da Polícia Militar é a de que sejam comercializadas cerca de 200 mil espadas em Cruz das Almas, durante os festejos. O preço de cada artefato, que costuma ser confeccionado no mês de abril, varia de R$ 10 a R$ 200, dependendo do tamanho e da quantidade de pólvora. Cada espada de 30 centímetros pesa em torno de 600 gramas.

O espadeiro José Reginaldo de Jesus Santos, de 41 anos, fabrica o artefato há mais de três décadas. “Comecei ainda menino”, relembra. Para este São João, ele fez 50 dúzias, o que dá 600 espadas. Todo o “arsenal” foi confeccionado por encomenda.

Reginaldo revela que para encher a espada costuma dar 150 batidas na pólvora, para acondicioná-la no artefato. Para isso, utiliza-se de dois instrumentos: o macete de madeira e o socador de ferro. O bambu onde é colocada a pólvora é enrolado com barbante de sisal.  

“É um espetáculo de perigo e beleza”, resume Reginaldo. “Já me queimei e hoje me protejo com roupa grossa, capacete, luvas e máscaras. Mas há quem se arrisque a ir para a guerra sem nenhuma proteção, só pelo perigo”, conta o espadeiro.

*Colaborou Cristina Laura e Marjorie Moura, do A TARDE

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