Centro Sul Baiano

Claudia Lessa Sex , 10/08/2018 às 10:06

Licuri gera emprego e renda no distrito de Jatobá, em Milagres



Usufruir dos produtos naturais que o bioma caatinga oferece, de forma consciente e sustentável, sem agredir a natureza. Foi partindo deste princípio que produtores rurais do distrito de Jatobá, no município de Milagres, decidiram se unir em torno de uma agremiação que beneficiasse a comunidade local e valorizasse o licurizeiro, a partir da exploração agroextrativista. Assim, em 2017, eles criaram a Associação de Produtores de Ouricuri do Jatobá (APOJ). Tendo o licuri como matéria-prima principal – entre outras como jatobá, umbu e maracujá –, os agricultores familiares produzem iguarias como bolos, tortas, cocadas, licor, beijinho, brigadeiro, sequilhos e pé de moleque. Também produzem peças de artesanato a partir das folhas da palmeira do fruto. E para quem não sabe ainda o que é licuri, basta lembrar do antigo dito popular: “eu sou eu, licuri é coco”.

Empolgado com o destino que foi dado ao licuri na região, o presidente da APOJ, Antônio Ramos da Hora, conhecido como Neto, conta como a entidade surgiu, em 2017. “Certa vez, estava vendendo umbu na estrada e parou um carro. O motorista comprou um litro do meu umbu e me perguntou: o que vocês fazem para sobreviver quando acaba a safra da fruta? Fui para a casa pensativo com aquela indagação e, a partir daí, achei que tínhamos que pensar em um modo de aproveitar tudo o que a terra produz, para nos dar mais meios de sobrevivência, e ao mesmo tempo, tratar a natureza na base da sustentabilidade para que ela nunca nos falte. Foi daí que veio a ideia de fundar a associação”, conta, destacando que, hoje, o extrativismo do licuri gera emprego e renda na comunidade.

Sendo um dos frutos típicos da região, com produção natural em grande escala, o licuri ganhou notoriedade na culinária. Para isso, o coquinho passa pelos processos de quebra, seleção e separação das amêndoas. In natura ou transformado em guloseimas, os produtos são vendidos informalmente na feira livre da cidade, em eventos e na porta das escolas. “A população está aceitando bem os nossos produtos. As pessoas experimentam, elogiam e voltam a comprar, o que é uma prova de que estamos no caminho certo”, considera Neto.

A Associação de Produtores de Ouricuri do Jatobá conta com o apoio da Prefeitura Municipal de Milagres; da Universidade Federal do Recôncavo Baiano (UFRB); e do Centro Territorial de Educação Profissional (CETEP) do Vale de Jiquiriçá. As instituições de ensino estudam os aspectos socioambientais, econômicos e culturais associados ao licuri, por meio de pesquisas relacionadas à Agroecologia, envolvendo os seus diversos usos, o cultivo, a conservação e a produção. Além de estudantes do Ensino Superior e da Educação Profissional, a APOJ recebe alunos da Educação Básica, que fazem visitas técnicas para conhecer a importância histórica e econômica dessa palmeira sertaneja, além de degustar os quitutes originados do licuri.

Visitas

As crianças, em especial, saem encantadas com o espaço, como foi o caso de Maria Clara Silva, 9 anos, 4º ano do Ensino Fundamental. “Conheci um monte de coisas, gostei das hortas, das máquinas para tirar o pelo do licuri e uma outra para quebrar. Sem falar nos doces, que são muito gostosos, principalmente a torta, o brigadeiro e o pé de moleque, tudo feito do licuri. E foi mais legal ainda porque aprendi a fazer o pé de moleque e ainda plantei um pé de licuri”, conta orgulhosa.

Durante a visitação, os estudantes aprendem que o licuri é um fruto que pode ser aproveitado na sua totalidade. As folhas da palmeira são utilizadas na fabricação de artesanatos, como sacolas, chapéus, vassouras e espanadores. A amêndoa produz um óleo similar ao de coco, que é utilizado na culinária e na fabricação de sabão. A amêndoa é também utilizada na fabricação de doces, licores e leite, este último muito usado na cozinha baiana. Já os resíduos da extração do óleo da amêndoa são empregados na alimentação animal.

Pesquisas

A APOJ conta, também, com o apoio do pesquisador Aurélio José de Carvalho, que estuda sobre o olicurizeiro em suas dimensões fitotécnica, beneficiamento de máquinas, ambiental e políticas públicas. Quando ele e outros professores começaram as pesquisas a região do Semiárido vivia a pior seca dos últimos 70 anos e o licuri, como disse o pesquisador na ocasião, “foi a salvação do rebanho”. A primeira referência ao licuri se deu em 1587, mas não há muitos trabalhos científicos sobre o tema. Conforme Aurélio costuma dizer, “há um valor do licuri e, ao mesmo tempo, um desprezo por essa palmeira, porque ela ocorre naturalmente e, muitas vezes, as pessoas não dão o devido valor”.

Em 2016, Aurélio José (IF Baiano), Marcio Harrison (Sociedade Brasileira de Etnobiologia e Etnoecologia – SBEE) e Josenaide Alves (Cooperativa de Produção da Região do Piemonte da Diamantina – COOPES) lançaram o “Manual do Licuri” (Áttema Editorial), publicação que dialoga ciência, tecnologia, sabores e saberes populares.

Sobre a palmeira

Com o nome científico de Syagrus coronata, a palmeira do licuri pode alcançar 11 metros de altura e suas folhas, enfileiradas, tomam o formato de uma coroa. Os cachos de licuri têm, em média, 1.350 frutos, medindo, cada um, cerca de dois centímetros. Quando estão verdes, os frutos apresentam no seu interior uma textura aquosa, que vai endurecendo à medida que amadurecem, dando origem à amêndoa. A coloração varia do amarelo-claro ao laranja. A espécie pode ser encontrada no norte de Minas Gerais, na porção oriental e central da Bahia até o sul de Pernambuco e também nos Estados de Sergipe e Alagoas. Curiosamente, o licuri é um dos principais alimentos da arara-azul-de-lear, sendo considerado indispensável para a sobrevivência desta ave ameaçada de extinção.