Pessoas com idade de 44 a 80 anos foram as que mais deixaram de fazer as avaliações dermatológicas na pandemia | Foto: Divulgação
A Bahia registra redução de 63% no número de diagnósticos de câncer de pele durante a pandemia do novo coronavírus, em um ano com estimativa de 185 mil novos casos da doença, segundo o Instituto Nacional do Câncer (Inca). Os dados fazem parte de um levantamento da Sociedade Brasileira de Dermatologia e acendem um alerta para as subnotificações, uma vez que a população passou mais tempo em casa na quarentena e frequentou menos os consultórios médicos.
Um dos motivos para a diminuição nos diagnósticos é que as pessoas só têm procurado ajuda médica em casos de urgência, devido ao medo de se infectarem. É o que aconteceu com Lícia Maria, diagnosticada no final de 2019 como um lipoma - um caroço geralmente inofensivo - e que não retornou ao médico por conta da pandemia.
“Em agosto, após tomar banho, me enxuguei com a toalha e o caroço começou a sangrar. Mandei a foto para um cirurgião plástico e ele me informou que não era lipoma, e sim um câncer de pele melanoma, e sugeriu que eu procurasse um oncologista. O médico diagnosticou só de olhar, e me perguntou por que demorei tanto. Em dois meses, ele me operou duas vezes”, conta.
Lícia adiou ir ao médico por medo de se contaminar com o novo coronavírus | Foto: Reprodução | Acervo Pessoal
O oncologista Rafael Ribeiro explica que esses casos têm sido comuns no consultório. “Temos percebido uma mudança no perfil esse ano, de casos mais avançados. Provavelmente, pacientes que ficaram aguardando o término da pandemia para procurar atendimento ou, quando resolveram retornar, a gente já evidencia quadros mais avançados da doença”, analisa.
A parcela da sociedade mais afetada pelo câncer de pele é a formada por homens acima dos 60 anos e de pele mais clara. Essa também foi uma das quedas mais expressivas ligadas diretamente à pandemia.
Durante o isolamento social, pessoas de 44 a 80 anos foram as que mais deixaram de fazer as avaliações dermatológicas, na comparação entre períodos. Entre os adultos de 50 a 54 anos, a redução foi de 51%. Enquanto que, em 2019, foram 17.017 atendimentos, 2020 contabilizou 8.287 consultas.
O oncologista explica ainda que os tipos mais comuns de câncer de pele são o carcinoma basocelular e o espinocelular. Ambos apresentam altos percentuais de cura mas, por outro lado, alto impacto funcional e estético pelas sequelas locais do tratamento.
”Já o melanoma é o mais agressivo e potencialmente fatal. No entanto, quando descoberto no início, tem mais de 90% de chance de cura”, explica Rafael. “O melanoma já é um câncer mais grave, então um intervalo como esse, de 10 meses, é o tempo de ser um tumor inicial para metástase, por isso é importante o diagnóstico precoce”, completa.
Entre janeiro e setembro de 2019, foram registrados 210.032 pedidos de biópsias para detecção do câncer de pele em todo o país. No mesmo período de 2020, o número foi de 109.525, ou 48% a menos, segundo a Sociedade Brasileira de Dermatologia.
Médico Rafael Ribeiro explica a importância do diagnóstico precoce | Foto: Divulgação
O médico ressalta que não existe um protocolo especifico para uma rotina de exames - como a mamografia realizada uma vez por ano, por exemplo -, mas faz algumas recomendações. "De forma geral, o paciente deve realizar consultas uma vez por ano, especialmente se tem um grupo de risco - pele clara, com muita exposição ao sol", esclarece.
"Também é bom seguir algumas regras, como procurar orientação médica com qualquer ferida que demore mais que 4 semanas pra cicatrizar. As pessoas ficam inventando desculpas, mas nada justifica esse período. Já no caso dos melanomas, que geralmente são pigmentados, é uma regra que se chama A B C D E: A de assimetria, B de bordas irregulares, C de cores irregulares, D de diâmetro (quando é maior que meio centímetro) e E de evolução, a forma como ele cresce", conclui o médico.